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Mastectomia Profilática: o sentimento e a razão.
Jorge
Villanova Biazús*
Resumo:
È
realizada uma revisão , baseada no artigo pioneiro de Hartmann e
colaboradores que lançou um novo enfoque sobre o controverso tema da "
Mastectomia Profilática" na prevenção do Câncer de mama; mostrando uma
dramática redução de 90% no Risco Relativo de desenvolver câncer de mama. O
assunto é revisado observando aspectos da exposição e determinação do risco
de desenvolver câncer de mama , bem como , a forma de interpretar os
resultados publicados de modo a compreender a magnitude risco e o potencial
de beneficio associado à intervenção proposta para sua redução.
MASTECTOMIA PROFILÁTICA: o sentimento e a razão.
Após
anos de opiniões desencontradas e conclusões lastreadas em impressões
pessoais, sobrevivendo à margem da ciência e não em evidências provenientes
de dados submetidos à análise estatística, foi divulgada em janeiro de 1999
no conceituado New England Journal of Medicine uma análise
informativa onde Hartmann e colaboradores demonstram uma redução dramática
da incidência de câncer de mama em mulheres submetidas à mastectomia
profilática.
Com
os resultados deste estudo, a Mastectomia Profilática surge para a prática
clínica, como o único procedimento capaz de reduzir drasticamente a
ocorrência de câncer de mama. Além disto, a pesquisa evidenciou, pela
primeira vez, uma redução de mortalidade na ordem de 90%.
Apesar do método ter sido aplicado a pacientes com risco presumido segundo o
Gail Model, antecedendo o conhecimento do envolvimento dos genes BRCA1 e
BRCA2 como fator preditivo de suscetibilidade ao câncer de mama (o que
poderia selecionar melhor as candidatas à Mastectomia Profilática), mesmo
assim proporcionou uma redução de 90% na incidência e na mortalidade por
câncer de mama.
Pode-se analisar a Mastectomia Profilática – ou, preferentemente, a Terapia
de Substituição Glandular, uma denominação mais apropriada e menos agressiva
- como uma medida eficiente de prevenção do câncer de mama, apesar do grande
número de pareceres desfavoráveis à sua inclusão ao rol das opções
terapêuticas para mulheres em risco.
Estas
opiniões contrárias ao procedimento cirúrgico, parecem considerar apenas a
contabilidade final do número de mamas removidas pelo número de mortes
evitadas, porém deveriam estimar também o número de cânceres evitados.
Hartmann e colaboradores (1999) ao publicarem os resultados da mastectomia
profilática como uma redução no risco relativo (RRR), relataram uma redução
da incidência de câncer de mama de aproximadamente 90% entre mulheres com
risco moderado ou com alto risco.
Questiona-se se seria esta a melhor forma de expressar este dado? O risco
relativo permite ao leitor julgar a magnitude da associação, porém não
expressa as implicações clínicas destes achados, pois não fornece a
estimativa de quantas mulheres precisariam ser tratadas para evitar um
desfecho ruim. Esta distinção pode fazer diferença no manejo destes casos,
visto que a forma de relatar os resultados, se em Redução de Risco Relativo
(RRR) ou em Número de Tratamentos Necessários (NNT) tem diferentes pesos
nas decisões terapêuticas. O NNT torna clara a proporção de casos tratados
desnecessariamente e magnifica as diferenças entre os grupos de risco
moderado e alto risco, conforme demonstram as tabelas 1 e 2.
Tabela 1.
Redução de Risco
Relativo (RRR) e Número de Tratamentos
Necessários (NNT) para os desfechos de câncer de mama e morte no
grupo de alto risco submetidas à mastectomia profilática.
(Adaptado de Hartmann e cols., 1999.)
|
Risco e Desfecho |
Desfecho sem
Mastectomia |
Desfecho com
Mastectomia |
Redução Absoluta de
Risco (RAR)* |
Redução de Risco
Relativo (RRR) |
Número Necessário
Tratar (NNT) |
|
CA MAMA |
0.175 |
0.014 |
0.161 |
0.920 |
6 |
|
MORTE |
0.049 |
0.009 |
0.040 |
0.816 |
25 |
* A RAR é obtida pelo cálculo dos desfechos
sem tratamento menos os desfechos com tratamento, e a RRR é calculada como
a RAR dividida pelos desfechos sem tratamento e o NNT é obtido dividindo 1
pela redução absoluta de risco.
Tabela 2. .
Redução de Risco
Relativo (RRR) e Número de Tratamentos
Necessários (NNT) para os desfechos de câncer de mama e morte no
grupo de risco moderado submetidas à mastectomia profilática.
(Adaptado de Hartmann e cols., 1999.)
|
Risco e Desfecho |
Desfecho sem
Mastectomia |
Desfecho com
Mastectomia |
Redução Absoluta de
Risco (RAR)* |
Redução de Risco
Relativo (RRR) |
Número Necessário
Tratar (NNT) |
|
CA MAMA |
0.088 |
0.009 |
0.079 |
0.898 |
13 |
|
MORTE |
0.024 |
0.000 |
0.024 |
1.000 |
42 |
* A RAR é obtida pelo cálculo dos desfechos
sem tratamento menos os desfechos com tratamento, e a RRR é calculada como
a RAR dividida pelos desfechos sem tratamento e o NNT é obtido dividindo 1
pela redução absoluta de risco.
Observando estes dados constata-se que seria
necessário realizar 6 mastectomias profiláticas em pacientes de alto risco
para evitar um caso de câncer, mas no grupo de risco moderado seriam
necessárias 13 cirurgias para prevenir um caso. Os resultados mostram
também que para evitar uma morte por câncer de mama é necessário um grande
número de mastectomias profiláticas pois poderia ser preveni 1 morte a cada
25 procedimentos, ou seja, 96% das cirurgias seriam desnecessárias quando
considera-se a mortalidade como desfecho principal.
Mas
será correto analisar esta questão apenas observando a mortalidade como
desfecho principal? Como avaliar o impacto do diagnóstico e tratamento do
câncer de mama na qualidade de vida da mulher de risco elevado ?
A relevância, nestes casos, de se considerar o
câncer de mama como a causa, ou não, da morte destas pacientes, parece
diminuída frente ao enfrentamento de um diagnóstico de câncer e ao seu
tratamento que, mesmo em casos de bom prognóstico, agrega morbidade muito
maior do que a cirurgia de substituição glandular que, tecnicamente, é um
procedimento simples e seguro.
A mama é um ícone da identidade feminina,
representa na esfera afetiva, elementos ligados à projeção da imagem e à
auto-estima, portanto, todo o ato que deliberadamente agride o órgão, tem
reflexos que transcendem primariamente à cirurgia. É bem estabelecida a
íntima relação entre forma e função, e sempre que é quebrada a harmonia dos
elementos, pode-se prever conseqüências na resposta afetiva agregada aos
valores estéticos e funcionais.
Assim, todo ato médico invasivo sobre as mamas deve ser precedido pela
compreensão de pelo menos dois conceitos fundamentais: a patologia cirúrgica
da mama com as técnicas de tratamento e o valor simbólico conferido ao órgão
mama.
Sendo
um órgão de múltiplas funções (Quadro 1) é imperativo que no planejamento
de uma intervenção cirúrgica sejam considerados como cada função poderá ser
afetada e como minimizar o dano estético, sensorial e funcional.

Quadro 1:
Funções atribuídas à Mama:
Levando em conta esta multiplicidade funcional temos que muitas são as
possibilidades de imputar perda funcional de maior ou menor grau e, sendo
assim, torna-se mais saliente o planejamento pré-operatório das intervenções
de substituição glandular.
A
Mastectomia Profilática, embora seja um procedimento de concepção simples
apresenta dificuldades técnicas que requerem soluções bastante elaboradas
visando alcançar os objetivos da cirurgia: remover todo o tecido mamário e
reparar o volume e forma da mama através do emprego de próteses ou retalho
miocutâneo. È um procedimento eletivo, de caráter terapêutico e estético
associados, que requer planejamento minucioso para que os objetivos
propostos sejam atingidos.
As
funções básicas da mama, estão associadas ao processo reprodutivo da nossa
espécie através da amamentação - nutrindo a sua prole - e da composição da
imagem feminina - como ícone de identificação e expressão da sexualidade.
Quando a cirurgia de substituição glandular é realizada após a constituição
da família, quando a função de nutrir não mais é desejada, pode então ter a
capacidade de preservar e até melhorar aspectos ligados à imagem.
Retirar da mulher com alto risco a ansiedade da incerteza e exorcizar o
fantasma do câncer, poderá melhorar significativamente a qualidade de vida
de quem conviveu, sentiu e sofreu , o drama do câncer de mama na família.
Quem
seriam as potenciais candidatas a cirurgia de substituição glandular?
Quadro 2: RISCOS
ASSOCIADO COM HISTÓRIA FAMILIAR DE CÂNCER DE MAMA
|
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RISCO DURANTE A VIDA |
RISCO ABSOLUTO (%) |
RISCO RELATIVO |
|
População em geral |
1:12 |
8 |
1 |
|
Um parente em primeiro
grau afetado (mãe, irmã ou filha) após os 55 anos |
1:8 |
12 |
1.6 |
|
Um parente em primeiro
grau afetado (mãe, irmã ou filha)entre 45-55 anos |
1:6 |
18 |
2.3 |
|
Um parente em primeiro
grau afetado (mãe, irmã ou filha) antes dos 55 anos |
1:3 |
30 |
3.8 |
|
Um parente em primeiro
grau com câncer de mama bilateral |
1:2 |
50 |
6.4 |
Primeiramente, pode-se analisar o risco associado à história familiar do
câncer de mama: observa-se que, considerando somente o perfil de risco
familiar, identificamos faixas de risco crescente atingindo até 50% de risco
absoluto (Quadro 2). Como tranqüilizar aquela mulher, filha de portadora de
câncer antes dos 55 anos. Como será viver com uma situação de 1/2 ou 50% de
risco absoluto de vir a ter câncer de mama? Como racionalizar e conviver com
chances de um evento que representa um desfecho com um potencial de produzir
dor, sofrimento e morte? O destino decidido ao acaso, a vida e a morte
embaralhadas, como em uma roleta russa?! E quando se analisa que mesmo as
faixas de risco mais baixo, 20% de risco absoluto na estatística do
cotidiano, correspondem à mesma chance de colocar uma bala em um revólver de
5 tiros, girar o tambor e disparar!!! A matemática parece simples: em 80%
das vezes nada vai acontecer, porém se testemunhássemos tal atitude,
certamente ficaríamos horrorizados com tamanha irresponsabilidade, com tanta
falta de respeito com a própria vida!
Compreende-se então a dificuldade que as mulheres de alto risco têm para
assumir a responsabilidade do auto exame. Na prática clínica isto é
constatado quando se observa que os achados referidos pelas pacientes têm
alta taxas de falsos positivos. Infelizmente, a quantificação da taxa de
falsos negativos é bem mais difícil. Que sensação estas mulheres vivenciam a
cada mamografia? Que papel imaginam que tenha a Quimioprevenção? Qual o
custo da espera? E quando da constatação da condição de portadora de um gene
mutante, que define uma suscetibilidade genética que, por sua vez, pode
apontar um risco de 85%? O que oferecer diante de tantas indagações?
Informação, medicação ou cirurgia?
São tantas as questões sem resposta única! Não
existem dados que apontem para uma opção ideal de consenso que responda a
questões tão subjetivas e que focam situações específicas onde as regras
gerais não se aplicam.
O
medo do câncer de mama que habita o universo do inconsciente coletivo das
mulheres não é percebido de forma racional e estruturada, assim sendo, a
capacidade de enfrentar as situações reais podem resultar em atitudes
aparentemente aberrantes, como a negação, freqüentemente presentes. Será que
para estas mulheres a terapia de substituição glandular poderia representar
o alívio da ansiedade e do estresse associado à condição de risco? .
Conforme o estudo recente de Frost e colaboradores , vários são os desfechos
positivos após a cirurgia profilática. A diminuição da preocupação emocional
sobre o possível desenvolvimento de um câncer e a melhora em vários
indicadores de bem estar psicológico e social como : estabilidade emocional
, diminuição dos níveis de estresse , aumento do auto-estima , melhora nas
relações sexuais e percepção da feminilidade.
( Frost MH, et al.
JAMA
2000,JUL 19; 284:319-324 )
Outra
situação, igualmente complexa, é a daquela mulher sem risco familiar porém
com diagnóstico de lesão proliferativa com atipia e que concentra o risco de
toda uma existência em apenas 15 anos (Quadro 3). O questionamento segue
linha semelhante: é possível neutralizar o risco? Para a paciente, no
entanto, a questão derradeira é: risco é doença ou é apenas uma abstração
estatística que estima uma probabilidade? A estatística nos mostra a
magnitude matemática do risco, que passa a ser extremamente importante na
adoção de estratégias de prevenção, pedra angular da medicina moderna.
Quadro 3.
Risco de Câncer de Mama Relacionada à Característica Histo-Patológica da
Lesão
NÃO-PROLIFERATIVAS
(RR =1,0) |
PROLIFERATIVAS
(RR = 1,9) |
|
ADENOSE |
HIPERPLASIA
MODERADA OU FLORIDA |
|
MACRO OU MICROCISTO |
PAPILOMA COM CENTRO
FIBROVASCULAR |
|
ECTASIA DUCTAL |
|
|
FIBROADENOMA |
HIPERPLASIA ATÍPICA
DUCTAL OU LOBULAR (RR = 4,4) |
|
Obs:
Hiperplasia atípica SEM História familiar
Risco
absoluto = 8% em 15 anos |
|
Obs:
Hiperplasia atípica COM História familiar
RR x 11 // Risco absoluto = 20% em 15 anos
|
FIBROSE
|
|
|
MASTITE |
|
|
MATAPLASIA APÓCRINA OU
ESCAMOSA |
|
|
HIPERPLASIA LEVE |
|
Embora a mastectomia profilática possa ser apropriada em mulheres de alto
risco de desenvolver câncer de mama estas mostraram-se menos propensas a
realizá-la que aquelas de risco moderado. Um estudo realizado por Meiser e
colaboradores (2000) mostrou uma forte correlação entre a inclinação a
submeter-se à mastectomia profilática, altos níveis de ansiedade relaciona
ao risco de câncer de mama e superestimativa dos riscos de câncer de mama e
não encontrou associação entre o desejo manifesto de submeter-se à
mastectomia profilática e o risco objetivo de câncer de mama. Daí
depreende-se que as mulheres de risco moderado devem beneficiar-se de
intervenções dirigidas a tentar diminuir a ansiedade relacionada ao medo de
câncer de mama e a conseqüente superestimativa do risco de vir a desenvolver
câncer de mama.
Parece pertinente avaliar o risco de câncer de mama dentro do contexto dos
riscos que competem para a morte por outras causas. A morte entre mulheres
de qualquer faixa etária é mais provável ser de outra causa que não o
câncer de mama.
A
mortalidade por câncer de mama representa sempre uma curva ascendente em
relação à idade, embora, proporcionalmente, vá diminuindo com o tempo.
Temos então que na meia idade a proporção de mortes por câncer de mama é
maior, embora a incidência continue a aumentar com a idade. Este paradoxo
pode ser explicado pela ascensão de outras causas de morte especialmente de
origem cardiovascular que crescem exponencialmente. Os dados disponíveis
demonstram que a maioria das mulheres que tem diagnostico de câncer de mama
não morrem da doença.
Compreende-se, com o então exposto, porque ainda não se tem critérios
estabelecidos para a indicação de Mastectomia Profilática. Por um lado temos
as deduções obtidas através da epidemiologia clínica, nas quais observa-se
um NNT de 1/6 neste grupo selecionado de mulheres com risco familiar (que
representa a necessidade de realizar 6 MP para evitar um câncer de mama) e
que, portanto, 86% das mulheres de alto risco submetidas à mastectomia
profilática não se beneficiariam do procedimento pois nunca desenvolveriam a
doença. Esta porém é uma visão crítica com foco no desfecho “doença ou não
doença” e, por outro lado, não considera todas as implicações psicossociais
relacionadas ou desencadeadas pelo medo do câncer que precisam
necessariamente ser contempladas.
Parece mais sensato, no atual estágio do conhecimento em que se encontra a
pesquisa científica relacionada às opções de tratamento e prevenção para o
câncer de mama, que cada caso seja avaliado em bases individuais -
observando características de risco pessoal e o grau de comprometimento
psicológico associados às vivências prévias, à projeção de expectativas
(fantasiosas ou não) e à dificuldade de aceitar o manejo do risco com outras
medidas (alterações de hábitos de vida, quimioprevenção e seguimento
programado) - para que se possa definir a indicação ou não de um
procedimento cirúrgico como a mastectomia profilática.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Efficacy of bilateral prophylactic mastectomy in women with a family history
of breast câncer.
N
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MEISER B, BUTOW P FRIEDLANDER M ET AL. Intention to Undergo Prophylactic
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JAMA 2000,JUL 19; 284:319-324 .
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